Laudo sobre morte de peixe-boi sai esta semana

Fontinho foi encontrado morto no Rio Santo Antônio (Foto: Severino Carvalho)
Fontinho foi encontrado morto no Rio Santo Antônio (Foto: Severino Carvalho)

O laudo da necropsia realizada no peixe-boi “Fontinho” fica pronto esta semana, informou o coordenador do Projeto Peixe-Boi em Alagoas, Iran Normande. De acordo com o analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o resultado deve apontar como possível causa da morte o ferimento à bala que atingiu a cabeça do animal, transfixando-a.

“Conversei com a veterinária que coordenou a necropsia feita no animal. Ela disse que não havia projétil, mas que certamente o ferimento foi provocado por arma de fogo, tendo em vista o pequeno orifício de entrada e outro grande, de saída, característico de um tiro”, revelou o analista ambiental.

O peixe-boi Fontinho, com 2,19 metros comprimento e cerca de 200 kg, foi encontrado morto no dia 28 de outubro à margem do Rio Santo Antônio, na Ilha da Croa, município de Barra de Santo Antônio, Litoral Norte de Alagoas.

Após a perícia realizada pela Polícia Federal (PF) no local, o peixe-boi foi recolhido e transportado em uma caminhonete à sede do Projeto Peixe-Boi, na Ilha de Itamaracá, em Pernambuco, onde foi submetido à necropsia.

“A veterinária também me revelou que o projétil fez um estrago muito grande na cabeça do animal, cujos ossos ficaram esfacelados em razão do impacto”, contou Normande.

Fontinho foi resgatado numa praia do Ceará, reabilitado na sede do Projeto Peixe-Boi e devolvido à natureza em 2012, no Rio Tatuamunha, em Porto de Pedras, onde fica o recinto de readaptação da espécie. O peixe-boi marinho é atualmente o mamífero aquático mais ameaçado de extinção do Brasil. Matar animais nessas circunstâncias é considerado crime ambiental.

Como o caso aconteceu dentro de uma Unidade de Conservação (UC) federal – APA Costa dos Corais – a PF assumiu as investigações. Na semana passada, os agentes federais realizaram diversas diligências em cidades do Litoral Norte de Alagoas, da Barra de Santo Antônio a Maragogi – na tentativa de identificar e prender o autor do disparo.

No passado, era comum pescadores agredirem os animais soltos na natureza, revoltados porque os corpulentos peixes-boi rasgavam as redes de pesca. As agressões tinham cessado após intenso trabalho, ainda em curso, de educação ambiental feito pelo Projeto junto às comunidades litorâneas e ribeirinhas da Costa dos Corais.

Até então, nunca tinha havido registro de morte de animais por arma de fogo em Alagoas. O único registro mais violento foi de uma fêmea, batizada de “Aparecida”, que morreu atingida pela explosão de uma bomba usada na pesca predatória, no final da década de 1990.

Sinais de recuperação

Iran Normande cuida de peixe-boi recém-nascido durante resgate (Foto: divulgação ICMBio)
Iran Normande cuida de peixe-boi recém-nascido durante resgate (Foto: divulgação ICMBio)

Apesar da morte trágica de Fontinho, a população desses mamíferos aquáticos em Alagoas começa a dar sinais de recuperação, resultado de 20 anos de atuação do Projeto Peixe-Boi Marinho, completados no dia 12 de outubro passado.

No dia 10 daquele mês, um filhote recém-nascido foi resgatado pela equipe da Base Avançada do Centro de Mamíferos Aquáticos (CMA) de Porto de Pedras, com o apoio da Sede do CMA em Itamaracá, da ONG Biota e do Hotel Resort Pratagy.

Este foi o primeiro peixe-boi neonato resgatado vivo em todo o estado de Alagoas durante todo o período de atuação do Projeto. Até 2013, não existiam registros de encalhes de filhotes recém-nascidos no Estado de Alagoas. Entre 2013 e 2014 já foram registrados três eventos, sendo que nos dois primeiros casos os animais foram devolvidos ao mar pela comunidade antes da chegada da equipe do CMA.

Apesar do monitoramento de praia subsequente, os filhotes não voltaram a encalhar.  Todos os registros foram realizados fora de unidades de conservação, o que indica que os peixes-boi têm utilizado, para fins de reprodução, áreas com menor grau de proteção ambiental.

O resgate

Tratador alimenta peixe-boi neonato resgatado em Alagoas (Foto: divulgação ICMBio)
Tratador alimenta peixe-boi neonato resgatado em Alagoas (Foto: divulgação ICMBio)

No último dia 10 de outubro, a Base Avançada do CMA em Porto de Pedras/AL recebeu uma chamada de encalhe de peixe-boi vivo por volta das 16 horas. Quando chegou à praia de Pratagy, em Maceió, já fora dos limites da APA Costa dos Corais, constatou tratar-se de uma fêmea recém-nascida de 1,10 m de comprimento e 24,5 kg.

Apesar de pequenas escoriações causadas pela areia no momento do encalhe, o animal apresentava bom estado de saúde. O peixe-boi foi mantido em um braço do rio Meirim por aproximadamente 24 horas, período que as equipes do CMA se revezavam nas buscas pela mãe.

Como não foram avistados peixes-boi adultos nas imediações do local de encalhe, a alternativa viável foi transportar o animal para o Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS) do CMA em Itamaracá/PE, o único local com condições operacionais de receber filhotes de peixes-boi na região.

O filhote chegou em ótimas condições ao CRAS, graças à grande dedicação da equipe de resgate. O analista ambiental e responsável pela Base do CMA em Alagoas, Iran Normande, coordenou o resgate até a chegada da veterinária do CMA Sede Gláucia Pereira, que assumiu os cuidados com o animal enquanto o restante da equipe efetuava as buscas pela mãe.

“Foi incrível ver a dedicação de toda a equipe que atravessou a madrugada dentro d’água e mesmo assim encontrou forças para realizar as buscas após o nascer do sol”, afirmou Normande.

O animal passou por uma bateria de exames clínicos e laboratoriais e agora atravessa um período de reabilitação. Em aproximadamente dois anos, o filhote estará apto para retornar à natureza e será reintroduzido em Alagoas, dando continuidade a bem sucedida estratégia de repovoamento conduzida pelo ICMBio.

O Projeto Peixe-boi/ICMBio já realizou 38 solturas desses animais em 20 anos de atuação. Destas, 28 foram realizadas em Alagoas com uma taxa de sucesso de aproximadamente 75%.

Segundo explicou Normande, este incremento de indivíduos ocasionado pelas solturas começa a refletir na população como um todo, possivelmente gerando um aumento do número de nascimentos e o consequente encalhe de alguns filhotes devido a condições ambientais extremas.

2 thoughts on “Laudo sobre morte de peixe-boi sai esta semana

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *