Campestre sofre com doenças transmitidas pelo Aedes aegypti

Paciente é atendida na Unidade Mista de Saúde Campestre (Fotos: Carlos Rosa)
Paciente é atendida na Unidade Mista de Saúde de Campestre (Fotos: Carlos Rosa)

O município de Campestre, a 120 km de Maceió, na região Norte do Estado, vive uma epidemia silenciosa das doenças provocadas pelo Aedes aegypti. É o que revela a edição da Gazeta de Alagoas desta quarta-feira (3). Por todos os cantos da cidade, a reportagem ouviu relatos de moradores que se queixavam de sintomas atribuídos ao zika vírus, à febre chikungunya e à dengue.

Os casos superlotam a modesta Unidade Mista, que chega a atender 50 pacientes por dia com essas manifestações. Na Rua Edézio Acioly Wanderley Filho, no Bairro Novo, há pessoas doentes em, pelo menos, 15 casas.

Na residência da secretária escolar Equésia Nunes de Azevedo, 22 anos, dos sete moradores, cinco estão doentes, cujos sintomas ela atribui à febre chikungunya.

“Tenho dores pelo corpo, de cabeça, nos olhos, febre e calafrios. Meus vizinhos estão doentes e os moradores aí da frente, também”, revelou Equésia, em entrevista à Gazeta.

“Está todo mundo doente com essa tal de chikungunya”, diz dona Marileuza Maria da Silva, 65 anos, que, juntamente com o marido, Alonso Clarindo, 80, ainda se recupera da moléstia.

E os casos vão se seguindo. “Pelos sintomas, eu acho que é Zika”, disse o radialista Buarque Júnior, que também foi acometido. O Bairro Novo é uma das áreas mais críticas de Campestre, onde diversos focos do Aedes aegypti já foram encontrados.

A localidade sofre com a falta de esgotamento sanitário e o desabastecimento d’água, cujo sistema é administrado pela Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal). 

Como a água, de coloração barrenta, só jorra pelas torneiras durante duas horas por dia, no máximo, os moradores são obrigados a acumular água em reservatórios, que se transformam em criadouros em potencial do mosquito transmissor da dengue, do zika vírus e da febre chikungunya.

O lixo também se acumula pelas ruas da cidade. No Centro, onde fica o comércio, o canteiro de obras para a construção de uma praça, cujos serviços se arrastam há mais de quatro anos, também acumula muita sujeira.

“Isso aqui quando chove se transforma numa piscina. Tem uma boca de esgoto que vive jorrando o dia inteiro. Hoje, ainda está limpo”, ironizou o aposentado Severino Ramos da Silva, 63, que se utiliza da praça para jogar dominó com os amigos.

A Gazeta apurou, ainda, que os agentes de endemias estão com os salários atrasados e que faltam material de trabalho, a exemplo de luvas e larvicída que deveria ser aplicado para a eliminação dos focos do mosquito.

Casos não são notificados

Obra se arrasta há 4 anos e acumula sujeira no centro de Campestre
Obra se arrasta há 4 anos e acumula sujeira no centro de Campestre

A aparente epidemia em Campestre é invisível aos olhos do governo do Estado. Isso porque os casos suspeitos de dengue, zika vírus e febre chikungunya deixaram de ser notificados durante a maior parte do ano passado.

Essa informação foi confirmada pela Coordenadora Municipal de Vigilância Epidemiológica, Daniele Peixoto, que assumiu o cargo em janeiro e, desde então, exigiu que as notificações fossem retomadas.

“Sabemos que existem muitas pessoas doentes, mas não temos dados de 2015, só de janeiro pra cá”, disse a coordenadora. Segundo o secretário municipal de Saúde, Júnior Calazans, foram notificados cerca de 50 casos suspeitos, só este ano, entre dengue e zika vírus.

Ele não soube explicar, porém, por que os casos deixaram de ser notificados no ano passado. Já a Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) informou que, de acordo com o último boletim epidemiológico, Campestre registrou apenas 17 casos suspeitos de dengue.

Já o Índice de Infestação Predial (IIP) pelo Aedes aegypti foi de 3,27%, o que deixava a cidade, com menos de sete mil habitantes, em risco epidêmico. Não há registro de casos de zika vírus, de febre chikungunya, nem de microcefalia.

Enquanto isso, não param de chegar doentes à Unidade Mista de Saúde. Eles apresentam sintomas associados às três doenças transmitidas pelo Aedes aegypti. Os casos já representam 90% dos atendimentos diários feitos ali.

Na manhã de terça-feira (2), um único enfermeiro de plantão – não havia médico – se desdobrava para atender os pacientes que chegavam em busca de atendimento, dentre os quais uma idosa de 86 anos, que sequer conseguia falar.

Segundo a técnica de enfermagem Eronilda Maria da Silva, a Unidade Mista chega a atender cerca de 50 pessoas diariamente com sintomas associados à dengue, à febre chikungunya ou ao zika vírus. Segundo ela, os casos começaram a se elevar a partir de dezembro do ano passado.

O secretário municipal de Saúde informou que as ações de combate ao mosquito Aedes aegypti foram intensificadas esta semana em Campestre. Os agentes de saúde vão trabalhar junto com os quatro agentes de endemias na detecção e eliminação dos focos, bem como na realização do trabalho educativo com a população.

Ele lembrou que Campestre foi alvo de uma ação conjunta, executada há cerca de 20 dias, que envolveu órgãos do governo do Estado e do município no combate ao mosquito.

Júnior Calazans negou, por fim, que os salários dos agentes de endemias estejam atrasados e que haja falta de material de trabalho. Segundo ele, resta apenas o pagamento referente ao mês de janeiro, que será quitado tão logo o Ministério da Saúde faça o repasse dos recursos.

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