Construção do aeroporto de Maragogi não decola

 

Assentados temem ser despejados; casas foram marcadas e serão demolidas (Fotos: Severino Carvalho)
Assentados temem ser despejados; casas foram marcadas e seriam demolidas (Fotos: Severino Carvalho)

Anunciado oficialmente em 2004, o projeto de construção do aeroporto regional de Maragogi voltou à estaca zero. A Secretaria de Aviação Civil (SAC) informou à Gazetawebmaragogi que só após a elaboração de um novo estudo de viabilidade técnico-econômico é que serão definidos os valores de investimento, o local e a data para o início das obras.

O projeto permanece envolto numa caixa-preta que parece ter caído em local incerto, tamanha é a dificuldade de se obter informações acerca do empreendimento. Os esclarecimentos prestados pela assessoria de imprensa da SAC à Gazetawebmaragogi só foram repassados 14 dias após o envio de questionário àquele órgão federal. E as respostas contrariam quase tudo o que já foi anunciado até então.

“O aeroporto de Maragogi consta na lista de localidades que terão estudos de prospecção, identificação e escolha de área com potencial para implantação de novo sítio aeroportuário, logo, somente após a conclusão do estudo de viabilidade técnico-econômico teremos conhecimento da previsão do investimento”, respondeu a SAC.

Em setembro de 2013, o então ministro-chefe da SAC da Presidência da República, Wellington Moreira Franco, confirmou o início das obras de 45 aeroportos regionais no Brasil para outubro daquele ano, dentre os quais os de Maragogi e de Arapiraca. Os dois projetos foram incluídos no Programa de Investimentos em Logística do governo federal, cujo plano de aviação regional, anunciado em 2012, prevê investimentos de R$ 7,2 bilhões em cerca de 270 aeroportos regionais brasileiros.

A origem dos recursos é o Fundo Nacional de Aviação Civil (FNAC). Estão previstos R$ 2,1 bilhões em investimentos só para o Nordeste, dos quais R$ 125,6 milhões devem ser destinados ao Estado de Alagoas para atender aos aeroportos dos municípios de Arapiraca e de Maragogi.

Na área destinada à pista do aeroporto, nem sinal das obras
Na área destinada à pista do aeroporto, nem sinal das obras

Pelo menos esse foi o anúncio feito naquele ano, animando parte do trade turístico da Costa dos Corais, no Litoral Norte de Alagoas. Isso mesmo: parte! Porque a construção do aeroporto de Maragogi não é unanimidade entre os hoteleiros.

Alguns estão preocupados com o alto nível de ruído que seria gerado pelas aeronaves no distrito de Peroba, área indicada para receber o equipamento. O local é densamente ocupado por pousadas. Outros entendem que a região necessita de investimento em rodovias ou mesmo na construção de uma rodoviária, empreendimento que Maragogi ainda não possui.

“O aeroporto é bem-vindo, desde que venha com toda a infraestrutura que o município necessita, como melhoria das próprias rodovias e nos setores da saúde, educação e segurança. É importante lembrar que, com o aeroporto, teremos um aumento de fluxo turístico na cidade e precisamos estar preparados para isso”, observou a presidente do Costa dos Corais Convention & Visitors Bureau (CCVB).

Mudanças de rota

Assentamento Junco fica no distrito de Peroba, em Maragogi, na divisa de Alagoas com Pernambuco
Assentamento Junco fica no distrito de Peroba, em Maragogi, na divisa de Alagoas com Pernambuco

A construção do aeroporto de Maragogi foi anunciada ainda no início do novo milênio e ganhou força de arranque em 2004, quando a prefeitura e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) viabilizaram o terreno para a construção do empreendimento. A área fica no Assentamento Junco, no distrito de Peroba.

Naquela oportunidade, foi anunciada a liberação de R$ 15 milhões para o início das obras. Dez anos depois, nenhum tijolo foi sobreposto na área. Os governadores de Alagoas, Teotonio Vilela (PSDB), e de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), chegaram a discutir, em 2012, a elaboração de um convênio para tocar a empreitada.

A ideia era que o aeroporto servisse também ao Porto de Suape (PE) para o transbordo de mercadorias o que viabilizaria economicamente a manutenção do empreendimento. Teme-se que a malha aérea comercial não seja suficiente para gerar recursos e assim manter os custos operacionais do equipamento.

As obras de implantação do aeroporto de Maragogi estariam estimadas em cerca de R$ 70 milhões.  O governo de Alagoas chegou a anunciar a propositura de convênio com o Ministério do Turismo (MTur), por meio do Prodetur (Programa de Desenvolvimento do Turismo no Nordeste), garantindo os R$ 15 milhões para o início das obras. O projeto já contava até com licença prévia.

Marcas nas casas deixam  moradores apreensivos
Marcas nas casas deixam moradores apreensivos

Com o anúncio da inclusão do aeroporto de Maragogi no plano de aviação regional deu-se a mudança de rota.

“O projeto está sob responsabilidade da Secretaria de Aviação Civil, visto que foi inserido no ‘Programa de Investimentos em Logística – Aeroportos’ do governo federal que irá viabilizar recursos para estruturar aeroportos regionais em todo o país. Até o momento, não temos informações sobre o atual estágio do projeto para Maragogi e se alguma parte do estudo anterior vai ser aproveitada ou se a SAC vai contratar um novo estudo”, informou a Secretaria de Estado da Infraestrutura (Seinfra), por meio de sua assessoria.

Informou ainda que a SAC, em parceria com o Banco do Brasil (BB), vai responder pela execução dos projetos e a Seinfra, junto ao Departamento de Estradas de Rodagem de Alagoas (DER), deverá responder pela gestão dos aeroportos de Maragogi e Arapiraca.

“O governo do Estado vai viabilizar as áreas para a construção dos aeroportos, que será feita diretamente pelo governo federal”, acrescentou.

Assentados ameaçados de despejo

Seu Amauri lamenta a ausência de informações sobre o projeto de construção do aeroporto
Seu Amauri lamenta a ausência de informações sobre o projeto de construção do aeroporto

Desde que o projeto de construção do aeroporto de Maragogi foi inserido no Programa de Investimentos em Logística, do governo federal, que as 47 famílias do Assentamento Junco vivem dias de incertezas. No ano passado, funcionários de uma empresa estiveram naquele núcleo rural e marcaram, com o símbolo de um avião pintado nas fachadas, as casas que serão removidas para dar passagem à obra.

Em 2004, a associação dos trabalhadores rurais do assentamento Junco cedeu, com a anuência do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), uma área de 93 hectares dentro do Assentamento Junco, na zona rural de Maragogi, para a construção do aeroporto. Até então, não seria necessário ocupar os lotes, nem a área onde está construída a agrovila.

O que os agricultores não sabiam é que, com a ampliação do projeto, sobretudo da pista de pouso, todos teriam de deixar a terra conquistada há 17 anos, depois de muita luta marcada por ocupações e despejos. A atual direção da associação diz desconhecer a doação das terras e contesta a cessão junto ao Incra.

Mesmo com o atual panorama de indefinição quanto ao início das obras, os assentados estão temerosos. “Ninguém vem aqui para explicar como vai ficar nossa situação. Só quem chega aqui são vocês, jornalistas”, se queixa o trabalhador rural Amauri de Souza, 49 anos.

Amauri se divide entre os afazeres do campo e da oficina que montou ao lado da casa dele, onde trabalha como soldador, no centro da agrovila. “Viver só do campo, hoje em dia, não dá”, argumenta. Ele iniciou uma obra de ampliação da oficina, mas suspendeu os serviços diante da ameaça de despejo.

“Ninguém é maluco de fazer um investimento e perder tudo. Estamos confusos. Não sabemos o que vai acontecer”, reclama. A superintendente do Incra, Lenilda Lima, já esteve em Junco, no ano passado, para tentar dirimir as dúvidas dos assentados, mas nem o próprio Incra tem informações concretas sobre o projeto de construção do aeroporto.

O que se sabe é que equipes técnicas do Incra já iniciaram os levantamentos acerca de lotes vagos em outros assentamentos da região Norte para onde poderão ser transferidas as famílias impactadas pela obra do aeroporto, o que só reforça o temor dos agricultores.

Cresce especulação imobiliária no entorno do assentamento Junco
Cresce especulação imobiliária no entorno do assentamento Junco

“Esse trabalho é feito a partir das vistorias rotineiras para regularização de lotes em assentamentos da reforma agrária. A transferência para a mesma região leva em conta o perfil socioeconômico das famílias”, informou a assessoria do Incra. “Eu criei meus filhos aqui. Dezessete anos é uma vida, já estamos acostumados aqui. Por que temos que sair agora?”, indagou Amauri.

O que o projeto de construção do aeroporto trouxe além das incerteza, até o momento, foi a especulação imobiliária. Loteamentos pipocam por todos dos lados na área do entorno do assentamento Junco, sobretudo em São José da Coroa Grande (PE). A área destinada ao empreendimento fica no distrito de Peroba, em Maragogi, na divisa de Alagoas com Pernambuco.

A faixa de terra doada para a construção do aeroporto de Maragogi em 2004 é plana, à margem de um riacho. No local, bovinos e equinos pastam tranquilamente. Os aviões, por enquanto, passam nas alturas, minúsculos. Ocupando o espaço aéreo de Junco há apenas passarinhos, aves de rapina e pontos de interrogação.

One thought on “Construção do aeroporto de Maragogi não decola

  1. Essa PALHAÇADA, todo mundo sabia que Não daria em nada.
    Em breve, os moradores de MARAGOGI, terão que irEMBORA, pois tudo aí, vai virar ou RESORT ou CONDOMÍNIO DE BARÕES!!!!

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