Apenas 30% contratam seguros no interior

Incêndio afetou restaurante pertencente a Valdivan, em Maragogi; ele não possuía seguro (Fotos: Carlos Rosa)
Incêndio destruiu parte do restaurante pertencente a Valdivan, em Maragogi; ele não possuía seguro (Fotos: Carlos Rosa)

Regina Carvalho e Severino Carvalho

Repórteres

É no interior do Estado que a sabedoria popular encontra terreno fértil. Os provérbios ainda são bastante utilizados por essas paragens. Um deles é usado comumente para definir o sujeito precavido, cismado: “O seguro morreu de velho”. Com o tempo, o adágio também passou a se referir às apólices e aí nem sempre o conselho é seguido à risca. Prova disso é que apenas 30% do total de seguros contratados em Alagoas são firmados por pessoas que moram no interior.

O dado é do Sindicato dos Corretores de Seguros de Alagoas (Sincor/AL). Na avaliação do diretor da entidade, Djaildo Almeida, apesar de haver o crescimento da procura por seguros – especialmente os automotivos – ainda há resistência de grande parte dos alagoanos que vive nas cidades interioranas e não recorre ao serviço.

Ele avalia que a questão está mesmo na certeza de que sinistros jamais acontecerão. Maceió e região metropolitana representam o percentual restante e superior: 70% dos seguros contratados em Alagoas.

Há tempos, as cidades mais distantes da capital deixaram de ser sinônimos de tranquilidade. Estatísticas dos órgãos de segurança atestam isso. Todo tipo de crime – especialmente roubos e furtos – passaram a ser registrados nos quatro cantos do Estado. As motocicletas têm sido o alvo preferido dos criminosos.

Na área que corresponde ao 6º Batalhão de Polícia Militar (6º BPM), sediado em Maragogi, e responsável pela segurança de oito municípios da região Norte de Alagoas, foram registradas 25 ocorrências relacionadas a roubos e a furtos de motos em 2013. Outras seis foram encontradas abandonadas.

Mototaxista há mais de dez anos em Maragogi, José Manoel dos Santos, 58, revela que nenhum dos 30 colegas de profissão no ponto em que trabalha possui qualquer tipo de seguro, inclusive ele.

“Sei que seguro é muito bom, mas não há interesse, apesar dos acidentes e dos muitos roubos; principalmente, roubo. Eu mesmo já caí três vezes, mas, graças a Deus, nunca aconteceu nada de grave comigo. Não tenho um dedo fraturado”, gaba-se José Manoel.

O aumento da violência foi motivo de mudança de comportamento em cidades maiores, a exemplo de Arapiraca, no Agreste alagoano. Os corretores de seguros sabem disso e passaram a ser mais requisitados na segunda maior cidade do Estado.

O mototaxista Manoel diz que já caiu três vezes, mas nunca fraturou um dedo sequer: confiança
O mototaxista Manoel diz que já caiu três vezes, mas nunca fraturou um dedo sequer: confiança

“A questão é que no interior a pessoa acha que nunca vai acontecer um acidente com ela, por exemplo. Em alguns casos, já está havendo mudança em relação a isso, como em Arapiraca. Isso mais por causa da violência”, afirmou Djaildo Almeida.

Foi de fato a violência que fez o comerciante Joel Cassiano contratar a cobertura de um seguro automotivo. Marido da presidente da Câmara de Vereadores de Maragogi, Elba Vasconcelos, ele teve uma caminhonete Ranger tomada durante assalto na AL-105, nas proximidades da Chã da Matriz, município de Matriz do Camaragibe.

O assalto aconteceu em 2008 e até hoje o veículo não foi recuperado. Ficaram o prejuízo e as lembranças daquela fatídica noite em que Joel e dois amigos permaneceram por quase seis horas sob a mira das armas empunhadas por quatro assaltantes, dentro de um canavial.

“Já falavam que naquela região aconteciam muitos assaltos, mas eu pensava que não aconteceria comigo e aconteceu. Hoje, tenho meus dois carros segurados, mais o ponto comercial”, declarou Joel.

Seguro pirata pode custar caro

Djaildo
Djaildo alerta para os perigos do “seguro pirata”

Não contratar o seguro de bens e de vida ou mesmo não buscar vias legais para fazê-lo – sem acionar um profissional devidamente capacitado – pode custar caro. Muitos alagoanos não procuram empresas devidamente legalizadas para garantir seu patrimônio. Outros, ainda, fazem o chamado “seguro pirata”, que não oferece respaldo legal nenhum ao cliente.

“Nem segurado ele é. Há ainda o exercício ilegal da profissão e não se paga imposto de renda. O Sincor já fez a denúncia na Susep (Superintendência de Seguros Privados), que abriu procedimento para investigar”, confirma o diretor do Sindicato dos Corretores de Seguros de Alagoas (Sincor/AL), Djaildo Almeida.

Presidente do Sincor/AL, Otávio Vieira Neto também alerta sobre os chamados seguros piratas. Para quem pensa que está economizando ao aderir ao serviço não regularizado, pode arcar com prejuízo mais à frente.

“Ele vai perder o direito de consumidor e no final vai descobrir que não teve vantagem nenhuma. As pessoas chamam de seguro pirata, mas não é nem seguro. Não é empresa. É uma associação. No caso de sinistro, rateia entre os associados”, lembra o presidente do Sincor.

De acordo com informações do Centro de Qualificação do Corretor de Seguros (CQCS), as associações piratas são um tema recorrente no mercado de seguro e que muitos profissionais que trabalham legalmente são lesados pela concorrência desleal. Entretanto, os mais prejudicados ainda são os consumidores que contratam esse tipo de serviço.

As associações acabam conquistando clientes por conta do valor da cobertura bem menor daquelas oferecidas pelas corretoras e seguradoras legalizadas. Em seu site, o Centro de Qualificação do Corretor de Seguros alerta que as associações “atuam de maneira marginal, não têm tributação, não têm custo de reserva, e o administrativo é baixo. Em função disso, essas empresas ilegais se tornam atrativas para o consumidor por causa do preço. É uma condição que no futuro pode gerar problemas ao segurado porque não há nenhum órgão fiscalizador”.

Investimento ainda é o melhor negócio

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Otávio Vieira lembra: erguer-se após um “baque” é difícil

Enquanto que para fazer o seguro de um automóvel no valor de cerca de R$ 30 mil o cliente paga de R$ 1.500 a 2 mil ao ano, para um patrimônio empresarial de 200 a 300 mil, o seguro contratado é de R$ 700 a R$ 1 mil pela cobertura básica. Essa medida pode amenizar futura dor de cabeça para o empresário que arcar com prejuízos que não esperava. Erguer-se após um “baque” desse é difícil.

O presidente do Sincor/AL, Otávio Vieira Neto, reforçou que garantir assistência caso aconteça algo a seu empreendimento é importante. É um investimento que deve ser pensado quando for levar à frente o negócio.

“Se você olhar bem, por exemplo, a cobertura contra incêndio fica entre 1,5 a 2% do valor do bem. Se acontecer algo, você perde o sonho e ainda fica a dívida. Tem que reconstruir”, disse Vieira.

E quem tenta se soerguer é a comerciante Daniela Souza Soares, 32 anos. Um incêndio ocorrido na madrugada do dia 15 de setembro destruiu a loja de confecções dela, na Praça Apolinário de Gusmão, no centro de Porto Calvo, região Norte do Estado.

Loja de confecções em Porto Calvo ficou destruída após incêndio
Loja de confecções em Porto Calvo ficou destruída após incêndio; comerciante também não possuía seguro

Ela desconfia que o fogo foi gerado por um curto-circuito na parte elétrica do imóvel, que se espalhou consumindo equipamentos, móveis e roupas. A comerciante teve um prejuízo aproximado de R$ 4 mil, além de ficar com a loja fechada por quase uma semana para reparos.

“Eu tenho seguro residencial e automotivo, mas até então nunca passou pela minha cabeça fazer um seguro para cobrir a loja. Não me atentei para isso. Agora, quando for fazer a renovação do seguro do carro, vou procurar saber os valores do seguro contra incêndio”, afirmou a comerciante, pensativa.

“Há casos de clientes que fazem seguro do automóvel, mas não fazem o de vida. O do veículo é mais procurado mesmo em Alagoas. Quando é um empresário tem que saber que, quando se tem um negócio, há riscos e é preciso proteger seu patrimônio. É mais barato fazer da empresa, porque é menos arriscado e mesmo assim não procuram tanto. É necessário reconhecer a importância de se fazer o seguro “, afirmou diretor do Sincor, Djaildo Almeida.

O comerciante José Valdivan Vasconcelos da Silva, 32, sabe disso e já manteve contato com o corretor da confiança dele. Valdivan havia contratado os seguros automotivo e residencial, mas deixou de fora, por um descuido, o do restaurante, localizado no centro de Maragogi.

O vazamento de gás de cozinha ocasionado por um defeito na mangueira de conexão entre o botijão e uma mesa inox superaquecida, em ambiente confinado, formaram as condições ideais para detonar o incêndio que atingiu o restaurante dele no dia 28 de agosto, recém-inaugurado, no centro de Maragogi.

“Eu tive um prejuízo de R$ 12 mil e uma funcionária minha ainda está machucada. Ficou a lição de que ter seguro sempre é bom. Há uns quatro meses, capotei com o meu carro e foi perda total. Só não perdi tudo pela tora (totalmente) porque tinha seguro”, afirmou Valdivan, que permaneceu com o estabelecimento fechado por seis dias.

“A gente não sabe o dia amanhã”, adverte o comerciante Amaro Luna, que possui dois estabelecimentos em Maragogi. “Eu fiz o seguro contra incêndio das minhas duas lojas, porque quem trabalha com equipamentos que não podem ser desligados tem de se precaver. Eletricidade é fogo”, ensinou.

Qualificação

Após prejuízo,
Depois de prejuízo de R$ 4 mil, Daniela tenta se erguer no comércio de Porto Calvo

O presidente do Sincor/AL, Otávio Vieira Neto, afirmou que o sindicato se preocupa com a adesão de clientes a empresas ilegais, e por isso, realiza curso de formação para novos corretores, formando cerca de 30 a cada ano. A medida garante que profissionais qualificados cuidem dos interesses dos segurados. É o corretor que faz o elo com o cliente.

“Com o investimento no curso de formação melhorou bastante a procura pelos seguros no interior. Muita gente que mora nesses municípios mais distantes não acredita que certas coisas vão acontecer, por isso deixa de fazer”, disse o presidente da entidade.

De acordo com Otávio Vieira Neto, em Arapiraca, a procura pelo seguro aumentou consideravelmente. “Lá, essa mudança é substancial. Por não verem antes colisões, roubos, achavam que estavam imunes, mas já viram que não estão”, disse.

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