São Miguel dos Milagres preserva tradição do boi de carnaval

Montagem do Boi Gavião durou dois meses (Fotos: Severino Carvalho)
Montagem do Boi Gavião durou dois meses (Fotos: Severino Carvalho)

A tradição do boi de carnaval é preservada em São Miguel dos Milagres, no Litoral Norte alagoano. O município, cenário de praias encantadoras, mantém viva a manifestação folclórica que encanta turistas e mobiliza toda a comunidade.

Desde 1997, que a prefeitura municipal promove concursos para eleger o melhor boi de carnaval. As competições ajudaram a fortalecer e a preservar a manifestação popular. A ideia de criar uma disputa partiu do radialista Cassiano Verçosa que, à época, era secretário de Administração e locutor oficial do município.

“Em 1997, o então prefeito José Cícero havia construído o Centro Turístico em Porto da Rua e eu sugeri aproveitar aquele espaço com a realização do concurso, porque os bois sempre foram presentes em São Miguel dos Milagres, principalmente no carnaval, quando passavam desfilando pelas ruas”, lembrou Verçosa.

Este ano, a prefeitura de São Miguel dos Milagres decidiu retomar a competição mirim de bois de carnaval. Será a nona edição desta modalidade, que acontece neste domingo (15), a partir das 19 horas, no Centro Turístico de Porto da Rua.

Grupo fixou lona e esteira na oficina para não revelar projeto aos concorrentes
Grupo fixou lona e esteira na oficina para não revelar projeto aos concorrentes

“A gente resolveu retomar o concurso mirim porque observávamos várias crianças de dez anos de idade fazendo os próprios bois. Nas escolas, em conversa com as mães dos alunos, elas também sugeriram essa ideia. São bois de um metro, uma graça. Eles tanto dançam como tocam a bateria”, explicou a agente de turismo Emanuelle Vilanova, uma das organizadoras do concurso.

“São crianças envolvidas na arte de transformar pedaços de madeira, pedaços de ferro, metros e metros de tecidos, lantejoulas numa verdadeira obra de arte”, completou Emanuelle.

Na segunda-feira (16), a partir das 19h30, acontece a competição adulta do boi de carnaval, também no Centro Turístico de Porto da Rua. Esta será a 18ª edição do concurso nesta modalidade. O torneio chega a reunir uma plateia de mais de cinco mil pessoas, entre moradores, veranistas e turistas de várias partes do Brasil e do mundo, hospedados nas requintadas pousadas da Rota Ecológica.

“É uma atração belíssima. Os turistas ficam encantados, o palco não comporta a quantidade de turistas que saem das pousadas para ver o boi, porque ali é o melhor ângulo para se filmar. Eles saem das pousadas, levam suas famílias, suas crianças para ver o boi”, lembrou Emanuelle.

"Seu" Roberto disse aguenta a agonia de montar o boi na casa dele para não ver os filhos e netos envolvidos com coisas ruins
“Seu” Roberto disse que aguenta a agonia de montar o boi na casa dele para não ver os filhos e netos envolvidos com o que não presta

O concurso se consolidou e hoje é intermunicipal, envolve grupos folclóricos de Porto de Pedras e Passo do Camaragibe, além da cidade sede. As danças de bois estão ligadas aos rituais festivos que celebram a renovação da vida, por isso eram comuns durante a Páscoa.

Em meio à encenação, o animal morre e ressuscita.  O boi passou de festa ligada à religião para as brincadeiras de carnaval. No Brasil, dependendo da região, tem diversas denominações.

“O daqui é o bumba meu boi, o tradicional, da batida verdadeira do repique e do tambor. Eles não incrementam, porque o que importa para o turista é ver o boi verdadeiro, o bumba”, descreveu Emanuelle.

Preparativos

A construção de um boi de carnaval pode levar até um ano. Logo após o fim da competição, os integrantes do grupo folclórico já começam a discutir ideias para a próxima jornada. Cerca de 30 pessoas, entre crianças, adolescente e adultos, iniciaram há dois meses a montagem do Boi Gavião.

A casa singela situada na Rua Agnelo João dos Santos, em Porto da Rua, pertencente ao pescador Roberto Januário dos Santos, o “Drospoió”, 60, transformou-se em oficina, onde o Boi Gavião foi montado. Roberto é avô do pequeno João Vítor, 13, um dos componentes do grupo folclórico.

Para Kléverson, boi é cultura e divervimento
Para Kléverson, boi é cultura e divertimento

“Estou aguentando por causa das crianças. Neto, filho, tá todo mundo aqui, brincando. No ano passado, foi a maior agonia. Mas, eu acho bom porque só assim não se envolvem com o que não presta”, disse o experiente pescador.

Para não revelar o projeto aos concorrentes, os integrantes do Boi Gavião cercaram a entrada da casa de “seu” Roberto com uma lona e esteiras. Lá dentro, em temperatura elevada, eles davam os últimos retoques. Para esta competição, escolheram como tema: “O Descobrimento do Brasil. Pedro Alvares Cabral e um índio surgem no dorso do “animal”, pintados com a arte do grafite.

“O boi é a cultura, o nosso divertimento. É bonito, a gente se diverte fazendo”, disse Kléverson Felipe, 15, um dos 20 componentes da bateria do Boi Gavião. A construção dos bois de carnaval conta com a abnegação de pessoas simples da comunidade, que financiam os projetos.

O vigilante escolar Zózimo Arlindo Zacarias, o “Zó”, é uma dessas pessoas apaixonadas pela manifestação folclórica. Mesmo recebendo apenas um salário mínimo, ele já desembolsou R$ 600 para a montagem do Boi Gavião.

Emanuele diz que a novidade este ano foi a reativação da competição mirim
Emanuele diz que a novidade neste carnaval foi a reativação da competição mirim

“Eu tiro do meu próprio bolso. Essas crianças não teriam condições de fazer isso aqui sozinhas. Fizeram a armação, mas não tinham patrocinadores porque ninguém queria ajudar”, contou Zó.

Os vencedores do concurso receberão da prefeitura premiação de R$ 800 para o primeiro colocado, R$ 500 ao segundo e R$ 400 para o terceiro. Eles ganharão, ainda, troféus estilizados, desenvolvidos especialmente para a competição. Todos os grupos também vão ganhar prêmios de participação.

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