De Joaquim Gomes a Matriz, caos na educação se espalha

O desleixo com a educação expresso na fachada da escola: "Governo de Alagos" (Fotos: Severino Carvalho)
O desleixo com a educação expresso na fachada da escola indígena: “Governo de Alagos” (Fotos: Severino Carvalho)

As escolas da região Norte de Alagoas voltaram às páginas da Gazeta de Alagoas, edição de domingo (06). O segundo caderno que encerra a série de reportagens especiais sobre a falência do ensino público no Estado mostrou o drama vivido pelos estudantes das escolas indígenas da aldeia Wassu-Cocoal, em Joaquim Gomes.

Eles sofrem com a carência de espaços para a prática esportiva, de salas de aula e com a deficiência no transporte escolar. O desleixo com a educação está presente até na fachada da Escola Indígena Estadual José Manoel de Souza, que passou por reforma recentemente. A logomarca oficial estampa, em letras graúdas, o erro: “Governo de Alagos”.

Em 2011, a aldeia Wassu-Cocal foi contemplada com um ônibus do programa federal Caminho da Escola. O veículo, porém, perdeu-se pelas estradas enlameadas do descaso e jamais chegou à comunidade indígena. Os mais de 600 alunos da Wassu-Cocal só dispõem de um micro-ônibus utilizado para o transporte escolar. O veículo foi conseguido graças a doações.

Escola indígena precisa de reforma urgente
Escola indígena precisa de reforma urgente

O coletivo, entretanto, tem limitações mecânicas – não é adaptado às estradas rurais – e por isso não consegue vencer os caminhos tortuosos que levam a localidades mais distantes. “Desde 2011 que esperamos o ônibus do programa Caminho da Escola. Não sabemos por qual estrada ele entrou, porque, aqui, na aldeia é que não foi”, reagiu a diretora-geral da Escola Estadual José Máximo de Oliveira, Eleuza Juvita de Lima.

A comunidade Três Manos fica a cerca de cinco quilômetros da escola. Todos os dias, cerca de 30 alunos – a maioria crianças entre 4 a 6 anos de idade – são obrigados a encarar o percurso a pé. É o que fazem os gêmeos Diogo e Diego, filhos do trabalhador rural Manoel Cícero, 46.

Os dois “manos” têm cinco anos de idade e um pai zeloso. Todos os dias, ele põe arreios em dois cavalos e parte para buscar os meninos na escola. Quer poupá-los da caminhada de volta, depois de uma jornada inteira de estudos. “Faço com maior carinho; são meus filhos”, declarou Manoel. E eles partem: o pai à frente, a puxar as rédeas do cavalo, abrindo caminho para um futuro, quem sabe, melhor.

Matriz 

Ginásio poliesportivo da Escola Estadual Maria Antônia: abandono
Ginásio poliesportivo da Escola Estadual Maria Antônia, em Matriz: abandono

Em Matriz do Camaragibe, a Escola Estadual Professora Maria Antônia de Oliveira Santos, construída para servir de modelo na região Norte, se converteu em exemplo de abandono.

“Nossa escola está na UTI, foi esquecida pelo governo. A verdade é essa. Foi construída em 2002 e nunca passou por uma manutenção”, lamenta a diretora-geral Joelza Mendes.

O apagão estrutural atinge todos os setores. A unidade, com 14 salas de aula, apresenta problemas elétricos e hidráulicos. São infiltrações, paredes rachadas e mofadas; telhados desfalcados, fiação saltando de interruptores e 140 lâmpadas queimadas.

O muro da unidade desabou e permanece no chão, dando acesso ao Ginásio Poliesportivo que definha, desativado, nos fundos do colégio. A estrutura perdeu parte do telhado o que provoca alagamentos sempre que chove. Sobre o piso por onde pernas e braços se movimentavam formou-se um lago que mata por asfixia a educação e o esporte.

“O ambiente da escola não é agradável. Há cerca de dois anos, ainda eu jogava aqui; hoje, o ginásio está destruído. Isso me dá uma tristeza muito grande”, queixou-se o estudante Adeilton Barbosa, 17, cuja imagem de desapontamento era refletida pelo espelho d’água formado sobre o piso do ginásio. Ele cursa o 2º Ano do Ensino Médio.

Nata
O alagoano Nathanael estuda em escola de Pernambuco e foi contemplado com bolsa de estudo no Canadá

Para fugir do caos em que se transformou a educação pública em Alagoas, estudantes que residem em municípios localizados na divisa com Pernambuco migram para a rede de ensino deste Estado. O êxodo estudantil acontece com maior intensidade nos municípios de Maragogi, Campestre, Jacuípe, Jundiá, Novo Lino e Colônia Leopoldina.

No início deste ano, três estudantes alagoanos que estavam no Canadá, participando de um intercâmbio internacional, retornaram as suas casas em Campestre e Jacuípe. Matriculados em escolas da rede pública de Pernambuco, eles deixaram Alagoas em busca de ensino de qualidade. Aqui, enfrentavam unidades precárias e a falta de professores.

“A vida é feita de escolhas e se eu não tivesse saído para estudar em Água Preta (PE), certamente não teria essa oportunidade (de fazer intercâmbio). Fui buscar o melhor pra mim”, afirmou o estudante Marcos Nathanael dos Santos Moraes, 16 anos, que regressou a Jacuípe em fevereiro, onde os pais dele moram.

Nathanael é um dos 1.103 estudantes de escolas públicas de Pernambuco, integrantes do programa de intercâmbio “Ganhe o Mundo”, que leva alunos a países como Estados Unidos, Canadá, Nova Zelândia e Espanha.

Francieli Priscila da Silva, 15, e Alfrânio Júnior, 17, são alagoanos de Campestre e também estudam em Pernambuco, na Escola de Referência em Ensino Médio dos Palmares (CEEPA). Eles passaram cinco meses no Canadá e retornaram a Alagoas no dia 30 de janeiro.

Seu Manoel usava cavalos para transportar filhos à escola
Seu Manoel usava cavalos para transportar filhos à escola

“Foi uma experiência maravilhosa, onde pude conhecer novas pessoas, novos lugares e uma nova língua”, resumiu Francieli. “Foi a experiência mais gratificante de toda a minha vida”, completou Júnior.

A coordenação do caderno especial publicado pela Gazeta de Alagoas ficou por conta do jornalista Maurício Gonçalves e os textos são dos repórteres Elisana Tenório, Jonathas Maresia, Maurício Gonçalves, Milena Andrade, Severino Carvalho e Wagner Melo.

A edição foi feita pela jornalista Mariana Vilela e as imagens são dos repórteres fotográficos Dárcio Monteiro, Felipe Brasil, José Feitosa, Marcelo Albuquerque e Severino Carvalho.

One thought on “De Joaquim Gomes a Matriz, caos na educação se espalha

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *